quinta-feira, 5 de junho de 2008

Caldo Verde

Parecia que seria levada por um sopro, de tão pequena e magra. Mas era rija afinal a Dona Lucrécia, porteira desde sempre do prédio onde passei a minha infância e adolescência, senhora absoluta da “suas” escadas e do quintal, que nós teimávamos em fazer cenário das nossas ruidosas aventuras. Na sua incessante patrulha pela ordem e limpeza das escadas, era vê-la a ralhar até com a minha mãe, se a apanhava a sacudir a toalha da mesa do jantar pela janela da cozinha depois do pôr-do-sol: é que as migalhas sacudidas no escuro eram chamamento para os demónios, se de dia, alimento para os anjos!
A Dona Lucrécia era a mais exímia e extraordinária cortadora de caldo verde que eu alguma vez conheci. Das suas mãos saíam autênticos cabelos de couve-galega cortados por uma velha faca que, de tão afiada, quase parecia partir-se a meio e que trabalhava encostada a um apertado rolo de folhas que girava na outra mão, numa sincronia sobrenatural de onde caíam os ínfimos fiozinhos verdes que seriam a alegria do inquilino sortudo a quem se destinava aquele Caldo Verde.
Se fosse viva teria hoje mais de cem anos e, claro, nunca mais comi nada que se parecesse com aquele Caldo Verde que entrou assim no dourado reino do mito.
O melhor que consegui, depois de alguns anos a tentar imitar-lhe os mágicos gestos e a ceifar sem dó os meus próprios dedos, foi comprar uma daquelas máquinas manuais que se usam nos mercados para os caldos verdes e julianas, na qual continuo a preparar um caldo verde com apreciável qualidade, principalmente se comparado com as infames farripas grosseiras de uma couve qualquer que hoje se vendem já embaladas com o nome de “caldo verde”.

Ingredientes:

500g de Couve-galega
1 Cebola média
500g de batatas
3 dentes de alho
Sal e pimenta
Azeite virgem
Azeite extra-virgem

Preparação:

Se possível, compre a couve no mercado, migada na altura. Certifique-se que foi usada a couve-galega e não qualquer outra. Nalguns sítios, como o Alentejo, é usual utilizar-se a couve portuguesa para o caldo, mas o resultado final é deficiente.
Ponha a couve migada num alguidar e cubra-a de água.
Coza as batatas, cebola e alhos em água temperada com sal. Quando cozidos passe estes vegetais pelo passe-vite. Um bom caldo verde não tem por base um creme liso mas um puré em que se notam algumas texturas. Volta ao lume, tempera com um fio de azeite virgem, pimenta moída e introduz a couve que entretanto escorreu. Deixe cozer em panela destapada, se quiser manter o verde aberto da couve. Se tapar a panela a sopa fica menos verde mas o sabor é o mesmo. O tempo de cozedura é muito variável, dependendo da idade e tenrura da couve. Quando estiver cozida a couve está pronta a sopa. Sirva muito quente pondo um fio de azeite extra-virgem, já no prato.

Notas:

É deliciosa acompanhada de sopas de pão e, de Verão, pode comer-se bem gelada..
Nalgumas regiões do Norte usa-se comer a couve quase crua, só escaldada, e acompanhada de uma rodela de chouriço ou salpicão, com broa.

9 comentários:

Marizé disse...

Gostei de conhecer a Dª Lucrécia. A minha avó cortava assim o caldo verde, a navalha era tá velhinha e afiada que já era uma meia lua, ninguém seão ela lhe podia mexer.

anna disse...

Luís, tenho pena, mas não sei cortar caldo verde... Compro cortado e pronto!
Adoro caldo verde!

cupido disse...

A variante gelada tinha-me passado ao lado, não imagino uma sopa com base de batata sem ser bem quentinha (ao contrário dos gaspachos, que adoro).

Adriana disse...

Esta senhora deve ter mãos de fada para a cozinha.Esta receita num dia frio é divina!

claudia disse...

Eu gosto muito mais do caldo verde cortado assim, tal como fazia a minha avó e a minha tia ainda o faz! É sem dúvida diferente!

turbolenta disse...

Só não ponho a pimenta. E um bom caldo verde não deve ser só quase água.Quanto às couves: as do meu quintal, galegas, apanhadas e cortadas logo, fresquíssimas e temos resultado garantido.
Também há quem goste de rodelas de chouriço a cozer juntamente com as batatas e depois triturado com elas.
Quanto às maquinetas para o cortar, nunca me ajeitem com um que me deram.Era com o tubo tão pequeno que ,além de nunca mais despachar aquilo, ainda saltavam todas em grande velocidade para o chão. Á mão é que ficam bem.
boa semana

Cristina disse...

A minha sogra ensinou-me dois pequenos truques que melhoraram bem a minha confecção deste caldo: corta mais miudinho o caldo verde (mesmo já vindo pronto) e escalda-o antes de o juntar ao creme. E depois é so levantar fervura, pois gosto dele bem "verde". Um clássico que sabe sempre bem.

Cristina

João Paulo Pedrosa disse...

Pois está tudo muito bem, mas a mim ensinaram-me um truque que lhe confere um aroma mesmo característico: picar um dentinho de alho muito picadinho, que se junta no final da cozedura, pode ser logo a seguir a desligar-se o lume. E comer sempre sem chouriço, pois claro, quando é bom é mesmo assim, não precisa de adereços. Mas concordo que na terra da broa liga bem a rodelinha, que se junta na malga depois de servir bem quente.
Em vez das sopas de pão, gosto muito mais de uma fatia de pão bem coberta de manteiga, dá-se uma dentada e vai-se comendo umas colheradas de caldo verde, que se vão misturando na boca com o pão... delicioso, não faço ideia de onde vem esta ideia tão pouco dietética, lembro-me de o fazer desde pequeno em casa da família. Vim desaguar neste blogue procurando pelo pão de rala e gostei muito do que aqui encontrei. Trabalho saboroso!

Isabel Miguel disse...

Peço desculpa se for mesmo assim, mas... 500g de couve para 500g de batata não é um bocado demais?
Tirando isso adoro ler os seus blogs.