quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Coelho à Caçador

Transporto em mim uma incoerência insanável que me acompanhará por certo toda a vida: Simultâneamente, detesto a caça, enquanto actividade, mas adoro a caça enquanto pitéu. Sendo que um não existe sem a outra, resta-me ir aproveitando, para meu deleite, o que outros matam e eu como, ambos por prazer! Se não fosse este remorso ...
Gosto muito de coelho, adoro se bravo e uma boa lebre deixa-me em êxtase!
Na minha infância e adolescência, um tio caçador inundava-nos positivamente com dúzias destes bichos, para meu gáudio, que sempre fui, por ali, o maior aficionado destas iguarias venatórias.
Se uma lebre tenra pode ser nobre assunto para uma infinidade de preparações de luxo, já o plebeu coelho tem uma receita que se destaca dentre todas como a que mais valoriza a sua firme carne: O Coelho à Caçador!
Mas o tio caçador, depois de uma vida em que foi gadanha de morte para tantos bichinhos, acabou por ser ele próprio levado pela incontornável sentença que a todos aflige e secou-se assim a fonte de tordos, perdizes, codornizes, pombos, coelhos e lebres, tantos outros de que não retive o nome.
Ficou o Coelho à Caçador como a minha mãe fazia, agora adaptado, pela força das circunstâncias, mais a coelhos mansos que bravos, mas ainda assim a ser uma festa para o paladar.

Ingredientes:

1 Coelho
150g de toucinho
2 cebolas grandes ou 3 médias
1 cabeça de alhos
Sal e pimenta
1 litro de bom vinho tinto, encorpado
1 dl de Azeite Virgem ou 4 colheres de banha
2 tomates maduros ou pelados
2 dl de calda de tomate
2 folhas de louro
1 colher de sopa de alecrim (folhinhas), se for coelho manso
1 colher de sopa de carqueja (flor seca), se for coelho manso.
Batatas
Pão fino, duro
Azeite vulgar, para fritar.

Preparação:

Amanhe o coelho como habitual, retire a vesícula com muito cuidado, parta o bicho em pedaços equilibrados, ponha tudo numa tijela, tempere com o sal e pimenta, junte o louro e os dentes de alho esmagados com uma pancada mas conservando a casca e regue tudo com o vinho tinto, que deve cobrir a carne. Deixe pelo menos um par de horas, melhor se puder ser para o dia seguinte.
Num tacho, melhor se tiver em barro, derreta a banha e frite na gordura as cebolas cortadas em rodelas finas e o toucinho em tirinhas. Quando alourarem introduza os tomates desfeitos groseiramente e calda de tomate e por fim a carne com a marinada.
Se está a cozinhar um coelho manso e gosta do sabor acre da caça selvagem, junte o alecrim e a carqueja. Depois de ferver, baixe o lume, tape e deixe estufar até o coelho estar tenro, o que pode levar meia hora, se manso, até quase duas horas se bravo. Neste caso pode ser necessário juntar líquido aos poucos, que será sempre mais vinho e nunca água.
Enquanto o coelho estufa, coza batatas novas com casca e frite fatias de pão branco em azeite. Deixe ficarem louras, escorra e reserve.
Serve-se o Coelho à Caçador sobre estas fatias de pão frito que são comidas também depois de bem embebidas no delicioso molho e acompanhado de batatas cozidas, temperadas também com o molho da carne.

Notas:

As crianças lá em casa, eu incluído, íamos sempre sonhando com o dia em que a minha mãe condescendesse em fazer batatas fritas em vez das odiadas cozidas, que achávamos o acompanhamento condigno para o petisco, embora raramente tivéssemos essa sorte.
O Coelho à Caçador pede de uma maneira muito especial para ser acompanhado por vinho alentejano ou da península de Setúbal.



13 comentários:

Bela disse...

adoro este prato.
Bjinhos da Bela

risonha disse...

não sabia que a carqueja só se usava se o coelho fosse manso.
aprendo sempre alguma coisa cada vez que passo por cá.

Baú da Conceição disse...

Gosto muito deste coelhinho, manso claro está que bravo dificilmente os consigo encontrar.

Abraços.

cupido disse...

Mais uma bela receita que retenho na memória; é daquelas coisas que o meu pai já não faz há anos e eu nunca me aventurei a fazer. Mas fiquei com água na boca, acho que vou ter que pedir ao meu pai para fazer um dia destes...

Adriana disse...

Também amo batas fritas.Isto é uma "doença" de infancia de todos nós.Bela receita.

Marizé disse...

Esta receita está para além das minhas capacidades, eu acho que não tenho grande talento para recriar receitas tradicionais, no entanto de vez em quando tenho o prazer de degustar esta delicia feita pelas mãos da minha mãe. Caçadores na familia não tenho, mas vão aparecendo algumas peças pela mão e espingarda de amigos.

Bj e bom fim de semana

Bela disse...

Dentro de dias vou postar o arroz frito, por isso põe-te atento, bjinhos e obrigada por passares pelo blog

Bela disse...

Dentro de dias vou postar o arroz frito, por isso põe-te atento, bjinhos e obrigada por passares pelo blog

anna disse...

Todas as crianças que conheço sonham trocar as batatas cozidas por batatas fritas...
Acho que vou tentar esta receita com 1 coelho manso, pois não consigo comer os de caça...
Também não sei se vou conseguir arranjar carqueja, mas este belo coelhinho merece ser feito à risca!

Eduardo Luz disse...

Luis, fiquei um tempinho fora do ar e quando passo por aqui vejo coelhos, cozidos, galinhsa, frangos e rins. Que produtividade, hein ! E com qualidade !
Agora, me diga uma coisa ! Como se faz pra tirar a pele dum coelho ? Pra mim, os coelhos existiram sempre mortos no supermercado (rsrsrs)!

anna disse...

Estou a fazer este coelhito para o almoço, mas sem carqueja, porque não encontrei...
Quando puder, passe pela minha cozinha, atribui-lhe um prémio... mesmo sabendo que o Luis não liga a estas coisas - lol!
Beijo.

Bela disse...

Querido Pontes,
Já tens no meu blog, o famoso e básico arroz frito, pois fiz com frango de caril.
Bjinhios da Bela

jorge pandeirada disse...

Há tempo que descobri o seu blogue e de onde tenho retirado excelentes momentos de prazer de leitura. Nunca antes tinha retirado qualquer receita mas este fim de semana fi-lo; experimentei o seu coelho à caçador com batatas cozidas. Isto de pois de um fiasco com uma receita que fiz numa formação há vários anos, ter dado a raia num almoço de domingo com a família. Tomei a liberdade de o publicar no meu blogue com os devidos créditos.
Um abraço.